The Hopeless Longing of Tomorrow

(Fonte: Deviantart)


Não sei bem o que nos faz querer escrever, apenas e só quando a alma se desmorona, e cai a nossos pés em pedaços demasiado finos para que possamos apanhá-los com os nossos próprios dedos, ou os dos outros.

Teimam em escorrer até à ponta da caneta, fragmentos de memórias, fantasmas de desejos, amontoados de pequenos nadas que desejamos ainda assim possuir, pequenas brisas que penetram pelas frestas dos vidros partidos das janelas apodrecidas de uma casa que alugámos mas nunca chegámos a habitar.

O vento gelado que encontra no suor dos nossos corpos febris o seu anti-climax, percorre as paredes e derruba os retratos de um passado que teimamos em perpetuar, como que dizendo-nos, "é preciso cinzelar o futuro mais habilmente do que o passado"; mas o que sabemos nós sobre isso se escultores não somos, se os pretéritos nos pesam nos ombros toneladas inamovíveis, se futuro nos parece uma expressão anedótica só ao alcance dos outros?

Temos a ousadia de afirmar que vivemos reféns dos nossos próprios medos, como se a assumpção de tal facto contribuísse por si só para a desintoxicação do corpo, para a purificação do sangue envenenado que nos corrói e mata, quando na verdade, o mais que faz é nada! A não ser talvez, conduzir-nos por um caminho de não-retorno, a um estado de catarse irreversível que nos deixa indiferentes a tudo o que de bom nos rodeia, porém receptivos à crueldade da vida como nenhum outro animal que habite este mundo.

Um dia haveremos de libertar-nos dessa teia negra, e começar a viver. Preciso de embriagar-me nessa esperança, para conseguir continuar a respirar... Na certeza porém de que não estará para breve, mas para um dia...

Um dia.

2 comentários:

Ane Montarroyos disse...

"[...] os pretéritos nos pesam nos ombros toneladas inamovíveis..."

Como pude me ausentar da beleza de tuas palavras por tanto tempo?

:)

Beijos,
Ane

Demian disse...

O teres gostado das palavras é o que importa, não o tempo de ausência. Eu próprio já pouco escrevo, de qualquer forma...

Muito obrigado, querida. :)

Um beijo grande.