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Desertor

(Imagem: Link)


Soubera desde sempre, qual o responsável por aquilo em que se havia transformado, tanto tempo depois.

Um forte abalo, havia desde cedo, feito estremecer as bases sólidas da sua fundação, e das consequências de tão terrível choque, jamais conseguira recuperar.

Apenas o homem que chora, percebe o significado das lágrimas de outrem.

Seguindo a mesma lógica... Apenas aquele que foge, consegue aquilatar, dos reais requisitos necessários ao aprimoramento de tão eficaz técnica: a de fugir (com o rabo à seringa).

Residia precisamente nessa gigantesca lacuna, o âmago das suas frustrações. Ter no sangue a essência do mal, e ser incapaz de aplicá-lo, a bem da sua própria sanidade...

Havia-lhe fugido durante tanto tempo, que mal sabia como encarar a besta, agora que a tinha à sua disposição.

Apertar-lhe o pescoço com quanta força tivesse, apenas faria sufocar o homem, nunca o mal que ele provocou...

Seria mais fácil imitá-la, fugindo... Mas jurara a si mesmo, jamais permitir que a sua luz se extinguisse, sem que à força lhe fizesse engolir, o dobro de todo o mal que lhe causara, a si, e àqueles que mais amava...

Run, little sissy, run as fast as you can. Someday I'll hunt you down, I WILL HUNT YOU DOWN!


Texto presente na Fábrica de Letras.

Silêncio

(Imagem: Link)


Fosse o silêncio passível de uma definição objectiva, e a maioria de nós, seria incapaz de descrevê-lo, pelo menos, da forma exacta e precisa que todos os sujeitos aos quais se aplica tal adjectivo exigem.

Fosse o silêncio mais do que um mero estado de espírito, e a maioria de nós pereceria ante a adversidade dos dias, incapazes que somos de não ouvir, peritos que somos na muy nobre arte de falar demais, sempre, sempre.

Será o silêncio sinónimo de grandeza de espírito, ou antes, a quintessência do medo?

Eis-me aqui, a divagar perante vós, sobre algo a que me fui habituado ao longo de toda a minha existência, mas que à primeira oportunidade de sobre ele me pronunciar, me tolda a vista mais do que a alma, incapacitando, quiçá de uma forma permanente, a minha própria criatividade...

Fossem todos os silêncios tão significativos como a morbidez deste blog, e decerto o mundo seria um local um pouco menos deprimente para se viver...

Citar-vos-ia aqui inúmeras passagens, de meia dúzia dos meus filmes e músicas favoritos, que decerto vos transmitiriam, muito melhor que estas palavras, o que esse tal silêncio significa para mim.

Mas não o farei, pois prefiro deixar no ar esta incerteza que, em boa verdade, sempre norteou os meus dias, e desconfio bem, continuará a fazê-lo, até ao fim dos tempos...

Apenas...

Four numbers staring back at me
Displaying the mediocrity of my presence

I'm wasting my day watching them change
The sun with it's blue sky outside
Shining down on all you happy people

I'm wasting my day waiting for rain
Need more methods to end each day

To be happy by living this way...


(Silêncio...)...



(Texto escrito para a Fábrica de Letras.)

Beautyness

(Imagem: Link)


Cruel mundo este, que alberga as sociedades mais repugnantes que existem: as sociedades dos homens, animais como os outros mas que ao contrário destes, tardam em perceber a sua insignificância, perante a mãe natureza, e o restante universo.

Cruel mundo este, onde os que compõem as tais sociedades se negam ao mais básico dos gestos de compaixão, perante os seus semelhantes, perante os desvalidos que, por culpa do dinheiro ou de um copo de vinho, se abatem no gélido chão, tombados pela mão do cobarde que ri com o choro de quem não pode defender-se.

Perante isto, definam-me "beleza".

Ou preferem que eu lhes aponte o que não é, afinal, digno desse adjectivo?

Em boa verdade, sentir-me-ia tão à vontade neste campo, que a minha demarcada parcialidade seria porventura suficiente para vos entristecer, e assim, prefiro não o fazer.

Prefiro continuar a absorver dos sonhos, utopias; pensar que a cruel verdade dos dias mais não é que uma espécie de contra-balanço, preparando-nos para o futuro risonho que banhará todos os que nos são queridos, como um raio de sol que por mais que nos ofusque, lhes trará a felicidade merecida, a eles, e por consequência, a nós próprios...

Prefiro continuar a não ser belo, se dessa forma não tiver que me render aos que agora critico, e nos quais correria o risco de me transformar, mudando.

E enquanto eu assim for, eternamente só, o mundo continuará a girar, pois é assim ele faz sentido, pois para eles nunca de outra forma o fará, enquanto eu não for capaz de o assimilar, enquanto eu não for capaz de admitir perante vós, que nele existe...

beleza.


(Texto Presente na Fábrica de Letras)

A Sleighing Song Tonight

(Imagem: Link)


Cinco horas de uma manhã qualquer, e ali estava ele, cansado e doente, em mais uma das suas inúmeras e vãs tentativas de afugentar o medo, da loucura, o desespero, da solidão.

O gélido cimento do chão, fiel servidor de aconchego aos inúmeros rascunhos que, amarrotados, por ali se amontoavam, era a prova de que já se havia esgotado a essência do seu coração, pois se já nem era capaz de escrever, o que mais lhe restava naquele mundo cruel?

Ecoavam pelos cantos, melodias natalícias que os "outros" teimavam em entoar, como que isso o fizesse feliz... Como se o Natal significasse outra coisa que não "o pior dia do ano", aquele em que o mundo fazia questão de recordar, aos velhos lobos solitários como ele, o quão miseráveis eram as suas vidas, o quão insignificante era a existência, quando não existia sequer alguém a quem desejar "Boas Festas"...

Ele, que sempre fora um sobrevivente, via-se agora condenado pelas dores, que na alma como nos dedos, o impediam de continuar, a escrever, a viver...

Olhou de soslaio para o mais que gasto calendário que trazia no bolso. Ele, que nunca perdera a noção dos dias, quis certificar-se de que não se havia enganado.

Mesmo que tivesse, o bulício que se instalara nas ruas como nos lares, os risos e os gritos de felicidade que as crianças não conseguiam conter, não enganavam ninguém: havia chegado "O" dia.

Havia planeado, ao longo de todo o ano, a sua própria festa de Natal.

Liberto de toda a tensão que um tal momento suporia, sorriu uma última vez, e fechando os olhos, permitiu-se a si mesmo um último pensamento: crianças, a brincar, felizes como ele nunca havia sido, e os seus pais, também eles satisfeitos, a contemplarem a beleza que existe na vida, através delas, dos seus olhos puros e inocentes que, esperava, jamais viessem a conhecer as misérias do "mundo real"...

O sol, incrivelmente quente e brilhante para um dia de Inverno, banhou-lhe a alma pela última vez.

O som de um disparo só passa despercebido quando as pessoas estão demasiado ocupadas para o ouvir... Quando o frenesim típico desta quadra cega e ensurdece o mundo.

Ele sabia-o.

E até hoje, nunca ninguém se preocupou em saber, por que motivo escolheu aquele homem, o dia de Natal para se despedir da vida.

Em boa verdade, ele não tinha uma única pessoa que pudesse sentir a sua falta... E assim sendo, tudo o que resta da sua passagem pelas nossas vidas, é precisamente este conto de Natal, pronto para ser lido por todos aqueles que encaram o mundo como sendo um paraíso, e a vida, como uma brincadeira de crianças... Crescidas.

Para todos eles...

"Feliz Natal".




(Texto escrito para a Fábrica de Letras.)