The Hopeless Longing of Tomorrow

(Fonte: Deviantart)


Não sei bem o que nos faz querer escrever, apenas e só quando a alma se desmorona, e cai a nossos pés em pedaços demasiado finos para que possamos apanhá-los com os nossos próprios dedos, ou os dos outros.

Teimam em escorrer até à ponta da caneta, fragmentos de memórias, fantasmas de desejos, amontoados de pequenos nadas que desejamos ainda assim possuir, pequenas brisas que penetram pelas frestas dos vidros partidos das janelas apodrecidas de uma casa que alugámos mas nunca chegámos a habitar.

O vento gelado que encontra no suor dos nossos corpos febris o seu anti-climax, percorre as paredes e derruba os retratos de um passado que teimamos em perpetuar, como que dizendo-nos, "é preciso cinzelar o futuro mais habilmente do que o passado"; mas o que sabemos nós sobre isso se escultores não somos, se os pretéritos nos pesam nos ombros toneladas inamovíveis, se futuro nos parece uma expressão anedótica só ao alcance dos outros?

Temos a ousadia de afirmar que vivemos reféns dos nossos próprios medos, como se a assumpção de tal facto contribuísse por si só para a desintoxicação do corpo, para a purificação do sangue envenenado que nos corrói e mata, quando na verdade, o mais que faz é nada! A não ser talvez, conduzir-nos por um caminho de não-retorno, a um estado de catarse irreversível que nos deixa indiferentes a tudo o que de bom nos rodeia, porém receptivos à crueldade da vida como nenhum outro animal que habite este mundo.

Um dia haveremos de libertar-nos dessa teia negra, e começar a viver. Preciso de embriagar-me nessa esperança, para conseguir continuar a respirar... Na certeza porém de que não estará para breve, mas para um dia...

Um dia.

Brown, Just Like Your Eyes

Fonte: Flickr


Admiro certas criações da mãe natureza, na verdade, fascinam-me.

Todas aquelas que vivem contra todas as probabilidades: nas profundezas dos oceanos, onde a luz nunca chega, outras enterradas a centenas ou milhares de metros onde nada mais existe senão escuridão, silêncio, solidão...

Certos organismos foram feitos precisamente para ridicularizar os teóricos do criacionismo, espécies impressionantes com milhões de anos que andam cá há mais tempo do que aquele que o homem é capaz de contar, não obstante a sua tentação para auto-impingir-se, e aos seus pares, uma explicação sobrenatural (obtusa, obsoleta e demente) para tudo aquilo que foge à sua compreensão.

Mas não é sobre religiões, o post. É sobre escuridão.

Também à superfície da terra, como nos seus confins, existem humanos que foram criados dentro da mesma base daqueles referidos no segundo parágrafo, porém, bastante afastados dos mesmos, no que à finalidade da sua existência diz respeito.

Certas pessoas foram mergulhadas nessa imensa negritude no momento da sua concepção. Nasceram cegas, e incapazes de saborear as cores do mundo. Incapazes de reagir perante a felicidade alheia. Incapazes, portanto, de absorver-lhes a(s) essência(s), de se deixarem contagiar pela febre que inunda de felicidade os corações dos outros, à custa de um qualquer evento insignificante que, repetido vezes sem conta, lhes permite viver vidas senão plenas, pelo menos, suficientemente satisfatórias para que não se sintam tentados a esmagar os seus próprios crânios contra as paredes, até mais não restar senão poças de sangue... E o silêncio.

Alguns passam a vida toda à procura do tal "click" que os faça erguer das trevas e lhes alumie tenuemente o caminho, longe de imaginarem que, afinal, é no parágrafo anterior que reside a ciência da vida.

É uma espécie de selecção natural feita à nascença, por uma questão de equilíbrio das coisas, suponho: nem toda a gente pode ser feliz. A felicidade não se alcança lutando. Nem tudo é possível, quando se quer muito.

A facilidade com que desmantelo velhas máximas da humanidade-totó até a mim me assusta. 

Não, meus amigos. Não sou Nostradamus, tão pouco mais inteligente que qualquer um de vós. Sou... Realista, e vivo apenas segundo os dogmas que a minha própria existência me enfiou pela cara a dentro a duzentos quilómetros por hora. Todos os outros me passam ao lado...

E, com quase trinta de experiência, sou suficientemente crescido para ter a certeza que, aconteça o que acontecer, jamais alguém conseguirá convencer-me de que a vida é mais do que uma gigantesca, imensa e (in)finita... Merda.

Até qualquer dia...