As Mãos e os Quartos


(Imagem: Link)


Pela mão do artista nascem por vezes as maiores obras-primas ao mundo ofertadas, expostas num qualquer museu, centro cultural, casa particular ou simplesmente, num pedaço de papel velho, amarelecido pela passagem do senhor tempo, afixado num qualquer canto de uma qualquer parede bolorenta de um qualquer quarto cinzento, desarrumado, desprovido de qualquer valor para quem quer que seja, além da pessoa que nele desagua, descarrila, morre e ressuscita todos os dias.

São assim os quartos. Alguns têm tantas histórias para contar, que dariam livros, caso alguém se desse ao trabalho de interpretar as mensagens presentes nas paredes, nos objectos, e nas próprias pessoas que por ali foram passando ao longo dos anos. Mas… Ninguém quer saber.

Digamos que não é um tema susceptível de grande apreciação, as venturas e desventuras de um quarto em específico. Por mais histórias que aquelas quatro paredes tenham em si entranhadas, falta a paciência para escarafunchar no gesso, para percorrer com o olhar cada milímetro da tinta branca que um dia as caracterizaram.

Faltam, sobretudo, as mãos. Essas, que de tão cansadas, fraquejam constantemente, protestam contra os ofícios ou a falta deles, contra o frio ou o excesso de calor, contra as suas semelhantes que são obrigadas a apertar indefinidamente, sem que lhes sejam dadas quaisquer alternativas… No fundo elas só queriam poder optar.

Talvez seja por isso que a caneta saia cada vez menos da posição horizontal que ocupa na secretária. Também ela se recusa a auxiliar-me, sempre que da gaveta penso em tirar as histórias imensas que aqui vos conto. Será um complô, entre a caneta e as mãos… Também elas estarão fartas dos caprichos do seu mestre. Também elas servem de metáforas perfeitas, para um texto que não foi escrito para ser entendido por quase ninguém.

Também elas não querem “ir por alí"…