O Pequeno Demiurgo


Escrevo
barco e uma quilha fende o vastíssimo mar
e as arvores crescem dos espaços enevoados
entre olhar e olhar movem-se
animais presos á terra com suas plumagens de ferro
e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa
comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

penso outono ou inverno
e o lume resinoso dos pinhais escorre sobre o rosto
sobre o corpo em tímidos gestos
eis o tempo
do capricórnio reduzido ao esconderijo tatuado
na asa mineral da ave em pleno voo e digo nuvens
relâmpago, erva, águas
homem
movimento do susto, oceanos, sal, exaustos corpos
transumantes paixões digo
e surge , irrompe, escorre, ergue-se, move-se, vive
morre
mas não julguem ser trabalho simples nomear
arrumar e desordenar o mundo

para que não se apague esta trémula escrita
preciso do sonho e do pesadelo
da proximidade vertiginosa dos espelhos e
de pernoitar no fundo de mim com as mãos sujas
pelo árduo trabalho de construir os gestos exactos
da alegria que por descuido deus abandonou ao cansaço
no fim do sétimo dia.


(Al Berto)

Capítulo I - O Julgamento

(Imagem: Link)


Tão pequenas, que ridículas. As coisas, aquelas que servem para fazer esquecer por momentos a mediocridade dos dias. Obrigado à misteriosa menina da "terra das tias", pelo riso momentâneo que me proporciona, a cada novo capítulo de uma novela cujo fim em breve conhecerei.

Mas...

Tantos anos de desilusões deviam permitir-lhe, ao menos, erguer à sua frente o escudo protector que o impediria de cometer os mesmo erros do passado. Como está feliz, sente-se o maior, como quem diz "Ah! Já caí nesta uma, duas, cinco vezes. Agora não me apanhas mais!"...
Pobre idiota. Nem sequer se apercebe da quantidade de vezes que é necessário ser-se espezinhado, até ser possível aprender a lição. Será mesmo? Existem pessoas que nunca aprendem...

E eu, que sei, digo: maldito seja o coração.

Acercai-vos. Colocai, todos, as vossas mãos entrelaçadas, e perante a minha cabeça deixai-as cair, para que sinta o tremendo peso do seu julgamento. Permito que o façais, que me julgueis, uma vez na vida. Afinal, não é todos os dias que se cai no conto do vigário, quando se foi o inventor do dito. Quando o próprio vigário somos nós! É preciso ser muito idiota, não é? Digam lá que não.

Afinal, a miragem está mais perto de deixar de o ser. A cada palmo de terra trilhada em nome de ninguém. Por cada centímetro de alcatrão inutilmente percorrido, chorareis para sempre o remorso, pela culpa, da minha morte...