Fins...

(In the end, by MechanicalSoul, deviantart.com)


Rir-se-ão porventura de nós, onde quer que estejam. Não num sentido pejorativo, não troçarão certamente das lágrimas que sinceramente por eles são derramadas. Poderão fazê-lo em relação às chamadas "lágrimas de crocodilo", mas isso é outra história.

Penso que a sua diversão, a existir de facto o que tanta gente apregoa como "um lugar melhor", se deverá essencialmente à sua análise daquilo que valeram as suas passagens pelo lado de cá. No fundo, à sua ideia do que valerão as de todos aqueles que se reúnem numa hora de dor inequívoca, pela sua partida. "Como são idiotas... Terão eles consciência de que o verdadeiro inferno fica desse lado, e não deste? Se sim, porque choram?"...

"Quando eu morrer não quero cá choros. Nem velas, nem flores, nem jazigos. Peguem no dinheiro que iriam gastar em tudo isso, façam uma bela jantarada e apanhem uma bela borracheira em minha memória. Morreu morreu, fod**-se. Não quero cá dessas hipocrisias como as que se vêm todos os dias. A vida é mesmo assim, todos nascemos para morrer."

Já me senti mais capaz de criticar tais palavras, proferidas por um velho amigo, do que hoje.
De algum modo, o ser frio e desprovido de sentimentos no qual me tenho vindo a transformar, encontrou por estes dias motivo para se questionar acerca do verdadeiro valor da vida. Acerca dos porquês de determinadas situações se verificarem, numa sucessão quase demoníaca (wow!) de acontecimentos que, sendo naturais, não deixam de ser impressionantes.

Ao observar aquele que fora desde sempre o mais imperturbável, o mais forte e frio de todos os amigos passageiros que encontrei ao longo da vida, naquele estado tão miseravelmente angustiado, apercebi-me que não conseguirei suportar semelhante desgosto, quando a minha hora chegar também... Por mais que as palavras do senhor Lúcio sejam um ode à resistência psicológica do ser humano, resistência psicológica é algo que só está ao alcance daqueles que foram verdadeiramente "talhados" para as vicissitudes da vida...

The time has come to say goodnight...


A Mão Entre o Crepitar



A mão entre o crepitar
de prata em forma de cunha
fez o formato da cara
mas não são bolas de pão
são pedacinhos de queijo
que as ratas buscam e cheiram
na minha imaginação
não lhes peçam mais casulos
com esse olhar de cereja
sejamos bichos avaros
deitemos fora o cotão
dos pedacinhos de queijo
nascem bolas de sabão.


(Escrito pelo saudoso José Afonso, durante a sua estadia na prisão de Caxias. Apenas mais um belo poema, de um artista genial...) (Foto de uma amiga minha)