Unsound Wombs

(ruins ii, by nareia, deviantart.com)


Como que uma corrida desenfreada, encetada por alguém com fome em busca de um naco de pão - passavam aqueles dias quentes, sequiosos, todos iguais, iguais ao que sempre foram desde que se havia ido.

Queimava-lhe a pele quase tanto como a alma, a pontos de a sentir estalar, aquele insuportável sol que teimava em cegá-lo como que castigando-o pela sua própria incapacidade de se proteger, contra todas as radiações nocivas que à vida lhe chegavam insistentes, quase nauseabundas.
Era um castigo brando, ainda assim. Se da incapacidade de discernir entre os que por bem vinham e aqueles que só o sangue lhe pretendiam sugar, nenhum outro mal surgisse, considerar-se-ia "o homem mais afortunado do mundo".

Mas não...

Nem colocando-se à sombra deixava de se sentir queimado... E só então percebeu que afinal, não era do sol que devia proteger-se, pois não era ele de todo responsável pela intensa dor que sentia.
Seriam, então, outros astros... Estes, bem mundanos, racionais e responsáveis pelos seus actos. Era a mentira descarada, constante e persistente. Era o sinismo, e a inqualificável "cara de pau" da parte de quem nunca o fora até então.

Pela primeira vez na história, alguém que sempre odiou essa tal igreja e todos os seus desígnios e pregões, conseguia enumerar, um atrás do outro, "pecados mortais"! Via-se obrigado a concordar que aqueles que estavam a ser cometidos, não em ofensa a um deus, mas sim a algo infinitamente superior, conduziriam na certa, à destruição total dos fraquíssimos alicerces que restavam, de uma construção que deveria ter sido abortada antes sequer de passar ao projecto.

Uma das partes envolvidas estaria, decerto, atacada por uma insanidade quase psicótica, pois era essa a única explicação plausível para o que estava a acontecer. E a única dúvida que lhe restava, no meio de tudo aquilo, era simples: qual delas seria? ...


I don't know whose side I'm on... I don't think that I belong round here. If I left the stage, would that be wrong?

Cimento

(doggy jail, by foonji, deviantart.com)



Suave e tão frágil à partida, tão dura e fria como sempre, no final, no fim de tudo.
Como a explosão dos sonhos que só mata por dentro, a queda imaginária mais não era que o final constatar da mais única e indelével das vontades: a de não ter, mais, vontade.

Ao volante da sua imaginação, acompanhado apenas pelos destroços dos tais sonhos que um dia quase foram reais, deixava-se levar ao sabor dos tempestuosos ventos da mudança impingida, pensando, de novo, se era assim que pensava acabar(se), quando um dia pensou que aqueles pesadelos não podiam ser, de todo, o motivo maior das tumultuosas noites que outrora o conduziram às portas da insanidade.

E a morte (a tal que tudo encerra, todas as portas, até aquelas que nunca se abriram), era tão ou mais expectável que o mágico keymaker, que jamais aparecera durante toda aquela inexistência...