Confiança

Em mais uma daquelas incursões inúteis por sítios de ninguém, deu consigo a pensar (de novo). Mais instável a cada dia que passa, já nada o convence, e tenta procurar em todas as coisas uma explicação tão racional quanto possível. É então que lhe surge esta dúvida: Confiança. O que é, afinal, a confiança?

Um dia, acabado de chegar ao Buraco, olhou em frente, e viu o seu reflexo numa velha máquina de jogos arcade, desligada. Engoliu em seco e conteve-se, para não gritar. Aquilo que ali via não era ele... Aquele não era o indivíduo que um dia teve o sonho de ser alguém... Não era uma pessoa, porque as pessoas vivem. Era antes, um reflexo apagado, uma sombra de algo cuja chama vital se apagou, uma vela que ardeu até ao fim, restando dela apenas a cera queimada na base do castiçal... E foi-se embora.

Destruído uma vez mais, isolou-se (mais uma vez) no seu canto. Lá, esperava por si aquela que traria a resposta para a dúvida que lhe assolou a mente, ao inicio da noite. A tal Confiança...
Dona de uma mente tão pura que parece retirada de um filme infantil, com a sua simplicidade gritante, sorriu para si e os olhos, os tais "espelhos da alma", confortaram-no como se de repente, toda a sua (in)existência passasse a ter sentido.

A suas palavras impediam-no de adormecer, tal o impacto que tiveram em si. Sorriu, sem querer, algo que não acontecia há muito. Acreditou nela, por fim. CONFIOU nela... Porque, contra todas as probabilidades, ela CONFIOU em si...

Duas horas depois, tinha finalmente definido um conceito para a tal palavra.. Haverá mais, indubitavelmente. Mas para si, nesse caso concreto, bastou-lhe aquele. Prometeu não o partilhar com mais ninguém (seria apenas deles). E adormeceu...


Este é um post dedicado a alguém especial. Essa pessoa sabe que é só seu, o texto.

Abismo

(end of the line, by Rio Bravo, deviantart.com)



É como um veneno sem qualidade, aquilo que o vai matando. Misterioso, sem dúvida. Às vezes sente uma dor tão forte que pensa ter chegado o momento.. Da morte física, bem entendido. Mas não, falso alarme, uma vez mais. Aquela inexistência sem sabor, teima em prolongar-se indefinidamente. Cada vez mais enfraquecida, é certo, mas subsiste. Baseia-se porventura, nas (cada vez menos) efusivas demonstrações de afecto (de cada vez menos pessoas) e, ainda, nas (cada vez mais) ténues esperanças (de renascer).

Uma vez mais, isola-se do mundo, no seu pequeno e sombrio espaço. Toma consciência daquilo que foi um dia, daquilo que é, e daquilo que jamais será. Ali, percebe que a tal morte (espiritual) já tomou conta de si, há muito. Então, cerra os dentes, querendo gritar e não conseguindo, e sente de si próprio uma raiva indescritível, por ter deixado as coisas chegarem a um ponto sem retorno... Como foi possível? Certamente não foi o único culpado, haverá mais pessoas que têm a sua quota parte, mas é o principal, ele.

Ele sabe que o abismo se apresentará (uma vez mais) ante si, mais tarde ou mais cedo. A sua única dúvida consiste em saber se se deixará ir, dessa vez, rumo à libertação final. É esse o seu desejo, no fundo, sabe que é a sua única saída. No entanto, só nesse dia do fim (derradeiro) saberá se o único motivo que ainda o mantém neste mundo continuará, ou não, a ser suficientemente forte para o impedir de dar o último passo...