Abismo

(end of the line, by Rio Bravo, deviantart.com)



É como um veneno sem qualidade, aquilo que o vai matando. Misterioso, sem dúvida. Às vezes sente uma dor tão forte que pensa ter chegado o momento.. Da morte física, bem entendido. Mas não, falso alarme, uma vez mais. Aquela inexistência sem sabor, teima em prolongar-se indefinidamente. Cada vez mais enfraquecida, é certo, mas subsiste. Baseia-se porventura, nas (cada vez menos) efusivas demonstrações de afecto (de cada vez menos pessoas) e, ainda, nas (cada vez mais) ténues esperanças (de renascer).

Uma vez mais, isola-se do mundo, no seu pequeno e sombrio espaço. Toma consciência daquilo que foi um dia, daquilo que é, e daquilo que jamais será. Ali, percebe que a tal morte (espiritual) já tomou conta de si, há muito. Então, cerra os dentes, querendo gritar e não conseguindo, e sente de si próprio uma raiva indescritível, por ter deixado as coisas chegarem a um ponto sem retorno... Como foi possível? Certamente não foi o único culpado, haverá mais pessoas que têm a sua quota parte, mas é o principal, ele.

Ele sabe que o abismo se apresentará (uma vez mais) ante si, mais tarde ou mais cedo. A sua única dúvida consiste em saber se se deixará ir, dessa vez, rumo à libertação final. É esse o seu desejo, no fundo, sabe que é a sua única saída. No entanto, só nesse dia do fim (derradeiro) saberá se o único motivo que ainda o mantém neste mundo continuará, ou não, a ser suficientemente forte para o impedir de dar o último passo...

Free Fallin'

Cego. Por ter visto demasiadamente pouco durante a sua curta inexistência. E surdo, tão surdo que é incapaz de ouvir as suplicas, que uma e outra vez, alguém teima em gritar-lhe. Ele lá caminha, em círculos, sem rumo. É assim que se sente bem, na sua incomensurável vontade de ser ninguém. Ou, na sua tremenda ingenuidade. Ingénuo quando um dia pensou que o mundo era perfeito, que um dia realizaria todos os seus sonhos, todas as suas fantasias e desejos mais singelos. POIS ABRIU OS OLHOS! À força, e assim, cegou. Quando percebeu que afinal, tudo não passava de uma utopia, um sonho que um dia teve e do qual o acordaram com um grito tão alto, que ensurdeceu...

Caiu, então, numa nova realidade. Um mundo de dor insuportável, onde os dias duram anos, onde não existe bondade, inocência ou complacência. Nem compreensão, nem honestidade, nem beleza... Só trevas, ruínas, cinzas. Afinal foi para isto que nasceu, para se arrastar penosamente pelo caminho mais difícil que, no fundo, foi ele próprio que escolheu.

Nestes dias do fim, ele enlouquece. Mas, sempre com um sorriso nos lábios. De tal forma, que ninguém se apercebe do que está a acontecer. Aquele mundo é só seu, para sempre. É assim há quatro meses.........