Às vezes é difícil escrever algo que ao mesmo tempo consiga ser profundo e acessível... Para ti que já mudaste a minha vida, fica apenas a constatação desse mesmo facto, que por si só já diz muita coisa, se atendermos às condicionantes que existem e às limitações próprias da história que ainda agora começou. Espero que para variar, nas nossas vidas turbulentas, esta seja uma história com final feliz. E como não sou muito de lamechismos, deixo-te aqui o meu poema favorito, esse que ouviste magistralmente interpretado pela voz de uma grande banda portuguesa...Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Ha, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguem.
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mae.
Não, não vou por ai! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vos responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pes sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pes na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vos
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avos,
E vos amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sabios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguem.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguem me dê piedosas intenções!
Ninguem me peça definições!
Ninguem me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um atomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por ai.»
(José Régio)