O Génio e o Medo




A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada 
esta paixão pelos objectos que guardaste 
esta pele-memória exalando não sei que desastre 
a língua de limos 
espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos 
as manhãs chegavam como um gemido estelar 
e eu perseguia teu rasto (...) à beira-mar 
outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

[Al Berto - "O Medo"]

All That Could Have Been

(Imagem: Link)


Se tudo o que poderia ter sido mais não for que um loop contínuo de permanentes desilusões, polvilhadas quase sempre com os mesmos temperos (a dor inqualificável e persistente, as lágrimas que teimamos esconder, as promessas vãs que nunca chegam a materializar-se)... Então que andamos aqui a fazer?

Será que chega a ser verdadeiramente nossa, a vida que teimamos em viver pelos outros?

"Para não te desiludir, para não te levar comigo"...

Seremos verdadeiramente livres, se esta maldita consciência nos prende a uma vida e a um mundo que já não desejamos viver, ou conhecer?

Tenho tentado erguer barreiras suficientemente altas para que os que teimam em tentar escalá-las escorreguem algures no caminho e desistam dos seus intentos... Mas parece que muro algum será capaz de conter quem se move por amor. E por mais que eu queira fugir... Não consigo, sinto-me encurralado e incapaz de me libertar,

e eu preciso de fugir, necessito de abrir os braços e saltar por fim,

sabendo de antemão que, qualquer que seja o sítio onde aterre, será melhor do que tudo aquilo que algum dia senti,

sabendo de antemão que qualquer morte será melhor do que a vida que jamais vivi...

A Casa

 (Imagem: Link)


Enfeitamos as mentes e os corações com promessas imaginárias que teimamos em manter vivas,

mas estamos mortos há tempo demais, já nos esquecemos do que significa a felicidade,

dela já não sabemos extrair sorrisos que cheguem para continuar a enganar os tolos,

de nós nada resta senão meia dúzia de rabiscos num muro qualquer, votado ao abandono,

às intempéries, à solidão...

Que queremos, agora que por entre as frestas de uma casa em ruínas mais não espreitam senão as mágoas de um passado de tormentos,

a dor persistente das traições,

o vazio de um amor que nunca nos permitimos viver?

A vã esperança de um futuro sem projecto, sem alicerces,

ou um gesto de ternura que nos relembre: "you matter"?

Sei lá eu, talvez tu saibas, mas não posso de forma alguma pergunta-to. 

Talvez no dia em que te apercebas de que certos caminhos só podem ser percorridos a dois,

e que essa metade que te falta sempre esteve aqui, à tua espera,

a espreitar,

(por entre as frestas das janelas dessa casa onde nunca entraste, por mais que soubesses onde se encontrava)

de braços abertos, inocentes, sonhadores...

Maybe then, I'll still be here.

With my distorted sights... Alone and benighted by my frights...


We're Not There

 (Imagem: Link)



Camaleões emocionais que somos, podíamos ao menos ter nascido com a resistência e a capacidade de adaptação desses nossos irmãos irracionais, mas não.

Somos mais frágeis que os ramos secos de uma árvore à mercê das tempestades da vida, incapazes de lhe resistir, incapazes

de saborear as pequenas acalmias que nos vão sendo proporcionadas, 

aqui e ali. 

Aqui. 

Estás tão perto, que aqui ao longe me pareces inalcançável - os meus dedos teimosos querem agarrar-te, mas este coração cansado já não tem força suficiente para bombear esperança que chegue para manter vivo um corpo que há muito clama pelo seu descanso final.

Estás longe, e eu aqui tão perto sempre esperei por ti - em vez de te procurar, como devia ter feito. Será tarde demais para remediar tão imperdoável falha?

Estou já demasiado longe de mim para pensar com clareza. Foram tantas as vezes em que estendi o braço em busca de um abraço tranquilizador, em busca do ombro que sempre disponibilizei para os outros... 

Nunca o tive. Se calhar não gritei suficientemente alto,

mas está já demasiado gasta e trémula esta voz, não creio que ainda seja capaz de chegar aí, 

tão longe...

Tão longe...


Are We There?

(Imagem: Link)



Qual chama que água alguma apaga, grito em surdina capaz de apaziguar a mais tortuosa das almas, esta corrente de estranhos sentimentos que se arrastam no tempo e se perpetuam na ponta dos dedos,

errantes e exaustos na busca de uma paz permanente, fugidia.

We've always been there.

Mas quem somos afinal?

Pássaros sem asas planando ao sabor dos ventos, das tempestades, das correntes...

Sementes perdidas, ansiosas pelo solo fértil que nos fortaleça as raízes,

e nos permita enfrentar o tempo que nos resta neste espectro invisível e cruel,

cegos que estamos por nada mais conhecermos além da escuridão.

Seremos capazes de suportar a dor quando abrirmos os olhos pela primeira vez, e as trevas tiverem dado lugar à luz que nunca vimos?

Ela anda por aí, ao fundo de um túnel qualquer...

Let's find it together? 



Dispossessed

(Imagem: Link)


Sentimo-nos desapossados de todos os bens, materiais, imateriais, tudo, enfim

e nem tempo temos para parar e questionar-nos: como é possível termos chegado a este ponto?

Está em marcha uma corrida louca, do tempo contra nós próprios, e não há esquinas que nos protejam das chamas de um inferno real que nos consome,

por mais geladas que estejam,

por mais vontade que tenhamos de as deixar amenizar as fúrias que nos controlam...

Necessitamos urgentemente de um néctar qualquer que nos permita continuar, mas não sabemos de onde desenterrá-lo...

Será possível extrair ao vazio a essência da vida?

Outra coisa não fazemos senão tentar, e falhar, uma e outra, e mais outra vez,

até que cansados de arrastar os pés sangrentos,

nos daremos por vencidos num descampado qualquer, debaixo de um luar qualquer num lugar qualquer.

E quando prostrados no chão vazio, teremos então ao alcance das nossas mãos as raízes putrefactas de uma vida sem norte,

para que possamos então arrancá-las e descansar,

nos braços de um silêncio qualquer.

Por fim...

 

Dunkelheit



Quer brote do caos absoluto ou de um segundo de introspecção ao acaso, consome-nos sempre com a mesma intensidade, àqueles que dela nascemos e com ela vivemos, até que um dia

a escuridão.

É quase indefinível, por natureza. Como adjectivar o infinito? Temo-la demasiado entranhada nas profundezas do ser, afoga-nos impiedosamente antes sequer de pensarmos em dar umas braçadas em direcção à salvação...

Não sei nadar.

O sangue ferve e não há banho de gelo, antibiótico ou gesto de bondade alheia que o impeçam de se consumir, de dentro para fora, que de fora para dentro não vem nada,

é um infinito de continuidades que me abafa,

e o ar irrespirável inundado de promessas quebradas, envenenado pelas minhas próprias mãos. Com que direito me posso queixar a alguém?

Um poço sem fundo de inóspito vazio: é o que nos espera a cada virar de esquina, a cada dia que vivemos, nós que somos seres amorfos à espera de qualquer coisa que nos salve,

sabemos lá nós bem do quê...

Não temos salvação.

Deixe-mo-nos, pois, de devaneios, e cinja-mo-nos aos factos: só temos uma escolha a fazer, e com ela haveremos de viver ou deixar morrer...

Continuamos?


Winter/Heart

(Imagem: Aqui)


Precoce. O Inverno da vida, quando nem sequer o Outono deveria pairar no horizonte mais próximo, mas o coração

e os sonhos...

Tolhidos à nascença, que nem alhos semeados fora de época. Às vezes penso nisso, acho que fui semeado muito aquém (ou terá sido além?) de um tempo que jamais serviu para apaziguar o que quer que fosse.

"O tempo cura tudo"...

Mais vezes me insurgi contra a veracidade de tal afirmação, do que aquelas em que ela me fez algum sentido.

Não cura coisa nenhuma, o tempo só intensifica a dor. Prolonga as mágoas, perpetua os arrependimentos, condena-nos a um purgatório real, muito mais cruel e doloroso do que o (fictício) que espera os "pecadores", segundo as principais religiões.

E a saudade... 

Gostava de encontrar uma forma de mudar o tempo. Se não o tempo, o meu tempo. Gostava de viver um só dia de felicidade genuína, de chegar à noite e não ter medo de dormir, 

porque os pesadelos...

Gostava de voltar atrás e ter-te agarrado o braço, virado para mim e dito: desculpa-me por tudo, sou uma besta. Mas o amor que sinto por ti jamais se extinguirá, por mais anos que viva...

Por mais tempo que passe.

Não o disse e tu, claro, não podias adivinhar. Mataste o teu mas esqueceste-te de me dizer como matar o meu.

Amor.

Dois anos passaram, e ainda não faço ideia de como matar este amor,

amor...

E a cada dia que passa, mais pesada a respiração, mais longas as noites sem dormir, maior a apatia nos estados de consciência, e o medo...

De acordar novamente e saber-te perdida para sempre, e não saber como te encontrar, ou viver sem ti, de

já ter morrido sem dar por isso. Acho que não há nada pior... E se houver...

De certeza que já por lá passei e não dei conta.

One last goodbye?

L.K.M.W.

(Imagem: Aqui)


Atingiu-se um nível de mediocridade tal, na generalidade das sociedades por esse mundo fora, que é difícil resistir à força que nos impele em direcção ao abismo, a nós, que até somos compostos de material que resiste bem às vicissitudes inerentes aos processos de mudança...

Olho à minha volta e só vejo nulidades. Dou por mim a vaguear pelos perfis de gente conhecida nas redes sociais, e apesar de já não ficar surpreendido, a verdade é que dia após dia, a vontade de rir da burrice alheia vai esmorecendo e dando lugar à apatia, e aos poucos, a revolta transforma-se numa substância pastosa que aflora à boca e me faz querer vomitar, cada vez menos capaz de votar à indiferença coisas que antes me passavam ao lado, mas agora me atingem mais ferozmente que as balas de uma qualquer arma. It's not funny anymore...

Se ao menos os ignorantes soubessem o quão difícil é para os restantes lidar com as suas insalubres existências... Se ao menos parassem por um segundo e pensassem: "WOW, sou tão estúpido, isto não tem cura, vou suicidar-me imediatamente e reduzir os danos colaterais antes que tenha o azar de procriar, contribuindo desse modo para o declínio da minha espécie: ao entregar o futuro à minha prole que, certamente, será possuidora de caixas cranianas ainda mais ocas que a minha"... Mas não. Seria pedir demais...

Somos uma raça de macacos que parou de evoluir e entrou em regressão, não estarei cá para ver com certeza, mas prevejo um futuro muito negro para a nossa espécie. Isto daria azo a um texto interminável, mas estou demasiado cansado para dissertações filosóficas. Demasiado deprimido para acreditar que o amanhã ainda é possível... Demasiado morto para continuar a fingir que ainda estou... Vivo.

Life killed me, and killed me well. R.I.P.?


As Ruínas

(Link original para a imagem)


É nas noites infindáveis em que a insónia se apodera de mim, que mais desespero por não estares ali ao lado a deixares que a tua calma natural sossegue minh'alma torturada e me embale num sono profundo, onde finalmente encontre paz.

Mil voltas na cama, um sono leve, acordo e continuas ausente. Não há lágrimas capazes de fazer jus às múltiplas definições que poderias usar para descrever aquilo em que me transformei, sem ti. Jamais ausência alguma me havia transtornado assim. Julgava eu já ter vivido tudo, e afinal não fazia a menor ideia do que era... O amor.

A cegueira induzida pela falsa sensação de omnisciência é capaz de deitar por terra os sonhos de qualquer homem, e os que se julgam imunes a tal fenómeno mais não vivem que uma ilusão, que cedo ou tarde, lhes aniquilará quaisquer possibilidades ambíguas de felicidade.

Sei que é tarde demais para voltar atrás. É tarde demais para quase tudo, até para viver. Também a vida é uma tempestade onde pequenos choques, a seu tempo, nos impulsionam na direcção correcta. O problema de alguns é não serem capazes de resistir a essa passagem contínua de electricidade, não são suficientemente resistentes e acabam por permitir que o presente, e o futuro, lhes sejam aniquilados de uma forma irreversível - impossibilitando-os de voltar a sorrir durante tempo suficiente para que possam embriagar-se numa ilusão da esperança que, não sendo real, os embale para um novo dia...

Já não tenho esperança, nem dias, nem vida que chegue para continuar a lutar. As pernas fraquejam e o coração empedernido já não bombeia o sangue com força suficiente para que os restantes órgãos funcionem de forma correcta.

Estou cansado, e o caminho é demasiado tortuoso. As pedras são demasiado afiadas e os pés, sangrentos, incapazes de trilhá-lo como dantes. Não foi por preguiça ou falha... Simplesmente aconteceu assim, não há que lamentar.

Thank you for everything, my darling.


(a) Love Song



I love your eyes when you look away 
Thinking somewhere else of what ought to be 
When they're suddenly blue for a moment of time 
Then the color goes when you look at me 

I love your hands as a part of you 
As they write a word just by staying still 
When you talk they move, painting what you say 
So I understand more than words can tell 

I love your hair in the dark it's soft 
In the light it moves, red and green are brown 
All the time it takes for a night to pass 
And a lifetime grows as the day comes down 

I love you now as you don't love me 
I can't let you know you're too far away 
But I wonder now just what did you see 
When you looked at me in that loveless way

Herberto Hélder

Fonte: Aqui


Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima — eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.

Metaplasmo(ses)

(Fonte: Deviantart)


Ao longe a maré vazia entoa os cânticos mudos de quem ficou para trás, não por querer, por ter. Que.

A saudade é um fado triste que tolhe a alma e abre no corpo feridas profundas que só a terra há-de levar.

Perdemo-nos algures numa viagem incerta por caminhos mais infinitos que o universo, e de nós pouco mais resta senão a saudade do que nunca fomos...

Assente a poeira, é tempo de apanhar os cacos e colar de novo o pouco que ainda resta.

Na esperança de que amanhã...

O captain, my captain! (Até já)...


You're only given one little spark of madness. You mustn't lose it.


Felizmente certos homens são imortais. Seria demasiado triste, termos que nos despedir deles com um até sempre qualquer, sem hipótese de regatear ao tempo só mais cinco minutos da sua presença.

De um dos maiores actores de sempre (grandioso em todos os sentidos importantes da vida, segundo quem o conhecia) sobra imenso para matar saudades: as palavras, as imagens, as histórias... Essas nunca morrerão, sintamo-nos pois afortunados por termos tido o prazer de partilhar o tempo das nossas vidas com um indivíduo capaz de nos despertar tantas (boas) emoções, num mundo cada vez mais frio e desprovido de sentimentos (bons).

Foi um prazer, Robin. 

Muito obrigado, e até já...

The Hopeless Longing of Tomorrow

(Fonte: Deviantart)


Não sei bem o que nos faz querer escrever, apenas e só quando a alma se desmorona, e cai a nossos pés em pedaços demasiado finos para que possamos apanhá-los com os nossos próprios dedos, ou os dos outros.

Teimam em escorrer até à ponta da caneta, fragmentos de memórias, fantasmas de desejos, amontoados de pequenos nadas que desejamos ainda assim possuir, pequenas brisas que penetram pelas frestas dos vidros partidos das janelas apodrecidas de uma casa que alugámos mas nunca chegámos a habitar.

O vento gelado que encontra no suor dos nossos corpos febris o seu anti-climax, percorre as paredes e derruba os retratos de um passado que teimamos em perpetuar, como que dizendo-nos, "é preciso cinzelar o futuro mais habilmente do que o passado"; mas o que sabemos nós sobre isso se escultores não somos, se os pretéritos nos pesam nos ombros toneladas inamovíveis, se futuro nos parece uma expressão anedótica só ao alcance dos outros?

Temos a ousadia de afirmar que vivemos reféns dos nossos próprios medos, como se a assumpção de tal facto contribuísse por si só para a desintoxicação do corpo, para a purificação do sangue envenenado que nos corrói e mata, quando na verdade, o mais que faz é nada! A não ser talvez, conduzir-nos por um caminho de não-retorno, a um estado de catarse irreversível que nos deixa indiferentes a tudo o que de bom nos rodeia, porém receptivos à crueldade da vida como nenhum outro animal que habite este mundo.

Um dia haveremos de libertar-nos dessa teia negra, e começar a viver. Preciso de embriagar-me nessa esperança, para conseguir continuar a respirar... Na certeza porém de que não estará para breve, mas para um dia...

Um dia.

Brown, Just Like Your Eyes

Fonte: Flickr


Admiro certas criações da mãe natureza, na verdade, fascinam-me.

Todas aquelas que vivem contra todas as probabilidades: nas profundezas dos oceanos, onde a luz nunca chega, outras enterradas a centenas ou milhares de metros onde nada mais existe senão escuridão, silêncio, solidão...

Certos organismos foram feitos precisamente para ridicularizar os teóricos do criacionismo, espécies impressionantes com milhões de anos que andam cá há mais tempo do que aquele que o homem é capaz de contar, não obstante a sua tentação para auto-impingir-se, e aos seus pares, uma explicação sobrenatural (obtusa, obsoleta e demente) para tudo aquilo que foge à sua compreensão.

Mas não é sobre religiões, o post. É sobre escuridão.

Também à superfície da terra, como nos seus confins, existem humanos que foram criados dentro da mesma base daqueles referidos no segundo parágrafo, porém, bastante afastados dos mesmos, no que à finalidade da sua existência diz respeito.

Certas pessoas foram mergulhadas nessa imensa negritude no momento da sua concepção. Nasceram cegas, e incapazes de saborear as cores do mundo. Incapazes de reagir perante a felicidade alheia. Incapazes, portanto, de absorver-lhes a(s) essência(s), de se deixarem contagiar pela febre que inunda de felicidade os corações dos outros, à custa de um qualquer evento insignificante que, repetido vezes sem conta, lhes permite viver vidas senão plenas, pelo menos, suficientemente satisfatórias para que não se sintam tentados a esmagar os seus próprios crânios contra as paredes, até mais não restar senão poças de sangue... E o silêncio.

Alguns passam a vida toda à procura do tal "click" que os faça erguer das trevas e lhes alumie tenuemente o caminho, longe de imaginarem que, afinal, é no parágrafo anterior que reside a ciência da vida.

É uma espécie de selecção natural feita à nascença, por uma questão de equilíbrio das coisas, suponho: nem toda a gente pode ser feliz. A felicidade não se alcança lutando. Nem tudo é possível, quando se quer muito.

A facilidade com que desmantelo velhas máximas da humanidade-totó até a mim me assusta. 

Não, meus amigos. Não sou Nostradamus, tão pouco mais inteligente que qualquer um de vós. Sou... Realista, e vivo apenas segundo os dogmas que a minha própria existência me enfiou pela cara a dentro a duzentos quilómetros por hora. Todos os outros me passam ao lado...

E, com quase trinta de experiência, sou suficientemente crescido para ter a certeza que, aconteça o que acontecer, jamais alguém conseguirá convencer-me de que a vida é mais do que uma gigantesca, imensa e (in)finita... Merda.

Até qualquer dia...

Uma Lenda Real, e... Imortal




De tantas homenagens, de tantos agradecimentos, de tantas coisas fantásticas que foram ditas por tanta gente, retiram-se muitas conclusões, vivem-se muitos sentimentos quase todos convergentes num sentimento fundamental: orgulho.

Quase nunca senti como hoje orgulho no meu país, em todo um povo que se uniu em torno de um acontecimento que, sendo bastante triste, deve ser encarado com a alegria da celebração de uma vida ímpar e exemplar de um daqueles homens que são, por si só, homenagens à própria humanidade, àquilo que de melhor a mãe natureza consegue criar, não obstante a inevitável erosão que o tempo e as vivências vão operando e que quase sempre nos transformam para pior.

Não foi o caso.

Eusébio.

Foi dito quase tudo, e por isso pouco tenho a acrescentar. É esta a minha homenagem ao grande homem que ontem nos deixou, mas que, naturalmente, jamais será esquecido, uma lenda imortal que estará sempre presente na memória de todos aqueles que tiveram o prazer de ver e ouvir uma das figuras maiores da história de Portugal... E mais além.

(Ver o Santiago Bernabéu (e também Old Trafford, ouvi agora) cheio a respeitar um minuto de silêncio enquanto nos ecrãs gigantes passavam imagens do Pantera Negra, complementados com a emocionada (e emocionante) dedicatória (e posterior homenagem) dos dois golos que o melhor jogador da actualidade lhe fez, diz bem da magnitude da lenda que este grande senhor carrega consigo até à eternidade)...

Obrigado King, e até sempre...

Sala kakuhle, Madiba


For to be free is not merely to cast off one’s chains, but to live in a way that respects and enhances the freedom of others.

Fossem assim todos os homens, e o mundo seria um lugar perfeito... Já que não o é, ao menos que tenha aprendido alguma coisa com o exemplo de um dos maiores seres humanos que algum dia viu nascer.

Até sempre, Madiba.

Fadeaway

(Imagem: Link)


Sinto falta da velha adrenalina que me escorria dos olhos, e como uma flecha, impelia os meus dedos a massacrar as teclas, resultando em textos que surgiam em segundos para vosso deleite: amálgamas inenarráveis de dor, ódio e revolta, consumidores de almas, reflexos do pesadelo de uma vida em desnorte que vezes demais referi neste blog.

Não me interpreteis mal: tais sentimentos continuam a apoderar-se de mim mais vezes do que aquelas que vos lembrais de abrir o endereço da minha casa virtual...

Mas, por hora, falta discernimento para continuar a juntar as palavras, no fundo, faltam as próprias palavras, elas já não fluem como antes, e assim já não tenho quase nada para vos oferecer, é uma espécie de falência criativa a juntar à económica, e a todas as outras.

Salvem-se as imagens, e os sons... Esses continuam tal e qual como antigamente...

Déjà Vu



Faltam forças para conseguir deixar de depender do(s) amor(es), falta quiçá a coragem para completar a metamorfose homem-monstro que inevitavelmente ocorrerá aquando dessa transformação, faltam tantas coisas e não falta quase nada...


I'm looking over my shoulder cause millions
will whisper I'm killing myself again
Maybe I'm dying faster but nothing ever last I
remember a night from my past when I was
stabbed in the back and its all coming back
And I feel that pain again...


...